A nossa história não acaba aqui

A chuva insistia em cair, do mesmo jeito que as lágrimas em meu rosto também. Parecia que até era combinado. Enrolei-me ainda mais em meu cobertor, quando um trovão quebrou o silêncio quase profundo. Agora era esse pedaço de pano que me protegia e não mais grandes e confortáveis braços. Não era mais ele que me abraçava nos dias cinzas e entediantes, agora, era eu mesma que fazia esforço pra me manter bem.[1]

E que esforço. Era como se todos os dias fossem iguais. Mesmo que fizesse sol, no meu mundo, o dia estava encoberto e frio. A luz da secretária-eletrônica, que mostrava que havia uma mensagem, piscava de maneira irritante. Nem por isso iria ouvi-las. Queria me isolar do mundo, apertar o “pause” e deixá-lo lá, até o momento em que me sentisse bem para voltar.

Voltar para a realidade. Aquela que venho tentando evitar desde que tudo aconteceu. Desde que ele se foi. Se já não bastassem todos os problemas rotineiros, agora tinha que enfrentar um novo problema, sem a ajuda daquele que me ajuda a solucionar os antigos. As duas semanas em casa haviam me feito bem, longe de tudo e todos. Longe dele também.

Se me perguntassem o que havia acontecido, eu não saberia responder. Não saberia falar o que havia feito de errado. Todos me diziam que ele não me merecia, que eu era muito para ele. Só falavam para me confortar.

O telefone toca outra vez e, como habitual, deixo-o tocando. Estou tão absorta em meus pensamentos que demoro a identificar a voz que está deixando a mensagem. “Atenda ao telefone. Eu sei que está ai.” Um arrepio percorre a minha espinha, e o coração dispara. Tampo minha boca, como se ele fosse me ouvir. Ouço um suspirar pesado, fazendo meus olhos enxerem-se de lágrimas. “Desculpa-me.” As lágrimas voltam a cair assim que a ligação acaba. Encolho-me mais nas cobertas, ouvindo outro trovão explodir lá fora. Mil pensamentos cruzam minha mente de maneira desgovernada. Dobro os joelhos, apoiando a cabeça nele.

Ouço fortes batidas na porta, junto com gritos com o meu nome. Com um pulo levanto do sofá e me direciono a porta, parando alguns passos de distância. Como se sentisse minha presença, começa a falar mais baixo, pedindo para que eu abra a porta. As mãos trêmulas alcançam a maçaneta e a chave.

Talvez fosse hora para colocar as coisas de volta no lugar.

[1]   Esse primeiro parágrafo foi originalmente escrito pela minha amiga, Nih. (@prettyeletric) Foi o trecho que me inspirou para continuar o texto.
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